- Preciso conversar com o senhor, disse encostado da porta da cozinha.
Direcionou os olhos em minha direção, reacomodou-se na poltrona do sofá, revisou se a matéria da televisão ainda lhe era interessante, fitou-me novamente e como posasse para um quadro apoiou o queixo sobre a mão e esperou.
- Quero te pedir desculpas pelo grito no domingo, continuei a falar achando ser o melhor momento, sem um pingo de remorso na mente e na fala, mas pensando no bem estar familiar.
Ele como se não tivesse ouvido, visto ou entendido algo, não se manifestou.
- Disseram-me que o senhor estava chateadíssimo comigo porque eu retruquei o teu falar alto...
E interrompendo-me continuou:
- E estava mesmo. Comentei com a tua matriarca sobre o acontecido, vi que ela importunou o teu primo consideravelmente, pois, estava envolvido no caso. Preferi não me manifestar, mas estava louco por dentro. Só depois de refletir muito é que eu compreendi o que tinha acontecido. Achei até graça depois.
Há 20 anos estou acostumado a questionar, argumentar e contra-argumentar num tom elevado de voz, ainda mais quando detenho a razão e este foi um caso. O que nunca me aconteceu foi ser repreendido, ainda mais no mesmo tom de voz. Deu uma vontade de te esbofetear a cara, mas, na hora, fiquei sem reação alguma. Nem as minhas noras, meus genros, meus filhos e a minhas cunhadas, minha mulher e meus irmãos tiveram a ousadia que tivestes, tampouco os meus superiores na academia de oficiais, mas superastes a todos.
No teu caso, eu jamais pediria desculpas, entretanto agora me supreendes mais uma vez sendo humilde e reconciliando-te comigo. Quando acho que sei tudo da vida ainda vejo que tenho coisas a aprender. Tu me desculpas?
- Sobre?, exalei a minha ironia.
- Aprendes rápido. Rimos deliciosamente, depois continuou:
- Façamos assim: da próxima vez que o meu tom de voz subir ou não te agradar, coloque a mão no ouvido, assim saberei como agir, certo?
- Espero que funcione e vamos comer porque estou faminto.
- Vá que vou depois.
- Ok. Ah..., obrigado pela conversa.
- Vá logo!


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