Meu Jardim Vander Lee Composição: Vander Lee Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho Estou podando meu jardim Estou cuidando bem de mim Da primeira vez que saimos desta casa os móveis já não eram os mesmos, tampouco as experiências e as vontades. Tinhamos sonhos. Mudar de casa, pintar o apartamento, comprar um sítio, criarmos uma horta hidroponica, sermos mais unidos e felizes. Não fomos. Ainda com um certo tremor lembro-me das minhas lágrimas correndo pelos olhos embaçando-me a visão e eu tendo que colocar as roupas, os brinquedos e o que mais me fosse útil para aquele momento para que pudessemos partir. E no desespero arrumei a minha mochila, peguei algumas pelucias, outros bonecos entre carrinhos e com a segurança de um aperto de mão entrei no taxi e partimos. A porta aberta, as luzes acesas, a bagunça do momento, as coisas que deixei jogadas pelo caminho, o desespero dum outro a andar pela casa vazia e o silêncio pasmo do motorista. Dois anos depois voltamos a casa. Agora na certeza dela vazia. Abrimos a porta com cuidado. Pelo chão vinis quebrados, talheres jogados, sangue pelos lados, pelas paredes, pelos móveis, móveis destruidos e o chão todo ranhurado e as marcas de um desespero incabível de uma fera ferida. Ferida mas consciente. Meu quarto estava intocável. Não limpo nem arrumado. Os carrinhos em fila pelo chão, os bonecos nos mesmos lugares que haviam ficado, as roupas dentro do cesto, a flor do faso e os cadernos bagunçados no guarda-roupa, tudo em seu perfeito lugar, intocável por dois anos. Marcas inesquecíveis. Hoje vejo-me tendo que arrumar as malas novamente. A consciência e lucidez dos fatos são outras, as vontades também, assim como as opiniões. Desta vez não será necessário arrumar as malas correndo, tampouco deixar as coisas bagunçadas como estão. Há tempo, mas como da primeira vez há dor.

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