A,
Nunca me achei bom em alguma coisa, ou em alguma coisa que eu ponha valor. Sem autocomiseração, por favor! Estou bem cheio de certas coisas, de certas verdades e muitas mentiras que sou obrigado a ler, ouvir, ver e provar. Há tantas máscaras no mundo que me assusto com uma face verdadeira. Fico horas a admirar e há tempos que não me admiro. Ainda mais nestes momentos de canibalismo e antropofagia no qual eu estou passando. (Qualquer coisa meio ‘Vamos comer Caetano’ da Adriana).
E uma destas máscaras no meu dia-a-dia que tenho que aturar é o teu espanto descabido com a minha preocupação com os detalhes. Não, nunca fui detalhista, tampouco perceptivo, receptivo e qualquer outro ativo. Venho de uma família que não faz planejamentos, escolhas claras, visões e qualquer coisa correlata ao ‘estar preparado a’. Aliás, para os Cândidos de Oliveira (e até hoje procuro um cândido por uma coisa qualquer) o ‘se vira nos 30’ é mais gostoso; precisamos daqueles minutinhos de tensão, adrenalina, do ‘será que?’ que as circunstâncias pedem, pois os detalhes são apenas detalhes e os outros, depois do eu, são apenas os outros.
E insisto: como você sabendo de tudo isso pode se espantar com tão pouco? Se eu sou grosso como dizes é porque grosseria faz parte da família. Ou arrota caviar quem come bosta? Ou há riqueza no (que consideras) lamaçal? E posso ser super sincero? Educação eu tenho pra botar muitos indivíduos no chinelo, inclusive os teus. E sem pedestais, por favor, porque eu também acho que educação, em sua maioria, vem de casa; quem não teve que corra atrás do prejuízo. Polidez, para nós, acima de tudo é uma questão de troca e etiqueta social, ou seja, tem hora e momento.
E, por favor, não mais me repreendas se eu não faço a questão de usar esta mesma máscara que descobri grudada na tua face. Se já não tenho mais excitação em conversas banais, em coisas formais, em caras e bocas, num quilo disso e dois quilos daquilo. Sinceramente não dá. Mais falso que os beijos e abraços, aos quais me dispus a dar por pura educação, são o ‘tudo bem?’ a que tu me obrigas dizer. Quem são estas pessoas? De onde vieram? Não é no ombro delas que choro, rio, gozo a vida, divido momentos. Que me interessa então saber se com elas está tudo bem? Aliás, ‘tudo bem’ pra mim é um gancho maravilhoso para descobertas recíprocas. Ou alguém está bem por bem-estar e mal por mal-estar? É algo repentino? Um comprimido que se toma de manhã? Um acaso da sorte? Cara ou coroa? Acredito que seja uma série de fatores, isto sim.
Portanto, peço novamente para que fique bem claro, poupe-me de certas ‘cordialidades’ se as pessoas não querem e não são cordiais. Se eu rebato um ‘tudo bem?’ com um ‘queres realmente saber?’ ou dou-te a liberdade de ouvir um ‘não’ ou um ‘vai melhorar’ é porque de alguma forma convido-te a fazer parte do meu mundo. Se nem todos percebem isto ou estão preparados para ouvir que posso eu fazer? Mas, como vejo o teu contentamento vindo com um simples ‘sim’ que me corrói tanto e ‘sim’, por mais ridículo que isto possa parecer, não te dou até entendermos o estar de cada coisa ou valor daquela canção do Renato que fica tão bem na tua voz: ‘não é a vida como está e sim as coisas como são’ ficaremos no zero a zero.
Daqui, espero e oro pra que seja por pouquíssimo tempo. O tempo de uma lida, se necessário for minha doce e raríssima, mas nada boa e bem, amizade arranhada.
Sinceros beijos de Judas,
M.

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